sexta-feira, 23 de julho de 2010

Le Roy vs. Berthoud

Por Igor de Lacerda e Schütz,
Novembro de 2007

As últimas décadas precedentes à Era de Ouro da Cronometria (1800-1900) foram abundantes em descobertas e desenvolvimentos que possibilitaram o homem medir o tempo com precisão. Além disso, foram abundantes também em rixas e controvérsias que até hoje são motivos de debate entre os amantes da relojoaria.

Famosíssimas são as disputas entre John Harrison e a Comissão da Longitude e também a polêmica envolvendo John Arnold e Thomas Earnshaw, porém, menos comentada, talvez porque o envolvimento dos franceses na cronometria seja menos relevante que dos ingleses, mas nem por isso com entreveros menos interessantes, é a refrega entre Pierre Le Roy e Ferdinand Berthoud.

Pierre Le Roy Pierre Le Roy (1717-1785), nascido em Paris, filho do célebre relojoeiro Julien Le Roy, foi um dos pioneiros da cronometria na França, ao lado do seu rival Ferdinand Berthoud. Bem nascido, foi educado na profissão de relojoeiro desde cedo, portanto tinha os princípios da cronometria bem arraigados em sua mente.

O primeiro passo de Le Roy na direção de um instrumento de medição de tempo mais preciso foi contornar a falha mais significativa encontrada no escapamento cilindro – até então o escapamento mais preciso utilizado em relógios portáteis – a fricção entre a roda de escape e o eixo do balanço.

Como maravilhosamente explicado por Flávio Maia em seu artigo O escapamento de cronômetro, e peço aqui a devida licença para reproduzi-lo:

Escapamento cilíndro (clique para ver em funcionamento) “O escapamento de cilindro (figura a esquerda), assim como o escapamento de vareta, é conhecido como um modelo "de fricção". A explicação é simples: um escapamento é considerado "de fricção" quando o seu órgão regulador – o balanço – está em permanente contato com a roda de escape.

As deficiências dos escapamentos "de fricção" são claras. Como a roda de escape está em permanente contato com o balanço enquanto ele gira, seu movimento não é totalmente estável em virtude do atrito entre as partes do sistema. Ademais, o escapamento necessita de lubrificação intensa entre o cilindro e a roda de escape. Com a deterioração do lubrificante, o desempenho do relógio tende a piorar cada vez mais.”

A solução planejada por Le Roy foi separar o órgão regulador, isto é, o balanço, do contato constante com a roda de escape, este ocorrendo apenas num breve período de seu giro. Assim, em 1748 foi criado o primeiro escapamento destacado (“detached escapement”).

Não satisfeito com a performance obtida em seus primeiros desenhos, apenas em 1766 Pierre Le Roy alcançou um modelo que julgava aceitável. Em 5 de agosto deste ano, Le Roy apresentou ao rei Luis XV seu revolucionário relógio, conhecido apenas como “A” (logo em seguida construiria uma réplica, denominada “S”).

Cronomêtro A ou S de Pierre Le Roy

Este modelo contava com, além de um escapamento destacado aperfeiçoado, compensação de temperatura incorporada na roda do balanço, por meio de dois tubos vítreos, tais quais os de um termômetro, recheados com álcool e mercúrio, ao invés de por meio de uma tira bimetálica ligada a mola do balanço; e também um balanço isócrono[i], por meio de duas molas espirais planas. Ele descobriu que, para qualquer mola espiral, se seu comprimento for alterado pelo uso de pesos próximos ou então distantes da sua ponta externa, a mola seria isócrona, ao menos para determinado arco de rotação.

Detalhe do escapamento

Todos os três principais elementos formadores de um cronômetro moderno, quais sejam, um escapamento destacado, compensação incorporada na roda do balanço e um oscilador isócrono são encontrados no relógio de Pierre Le Roy, portanto, os modelos A e S são os verdadeiros precursores dos cronômetros marítimos, muito mais que o H4 ou qualquer outro relógio produzido antes!

Nas palavras do eminente historiador e relojoeiro Rupert T. Gould[ii]:

“Acompanhando a máquina seguia um memorando descrevendo, num estilo muito lúcido, os princípios de sua construção e os cálculos em que suas proporções se baseiam. Pelo conjunto de evidências de máquina e memorando, eu considero Le Roy como o maior gênio relojoeiro que jamais viveu.”

Uma pena para Pierre Le Roy que o rei e seus conselheiros eram incapazes de julgar ou apreciar todos os méritos da sua maravilhosa criação, e é aí onde se encontra seu maior defeito: ele não sabia propagandear seus inventos. Exatamente o oposto de seu rival, Ferdinand Berthoud, que manejava seus relacionamentos como ninguém.

Ferdinand Berthoud Berthoud (1727-1807), nascido no vilarejo de Plancemont, na região suíça de Jura, recebeu seu treinamento inicial como relojoeiro de seu irmão mais velho, Jean-Henri, e em 1745 foi em busca de fama e fortuna em Paris.

Lá, após um começo muito difícil, finalmente foi capaz de obter a licença para exercer a profissão de relojoeiro por meio de um decreto real, após introduzir uma nova e simplificada forma de cálculo para uso em relógios na Academia Real de Ciências. Através da influência de diversos membros poderosos da Academia, Berthoud conseguiu a tão desejada liberdade para exercer o ofício. Pouco após, ele virou sua atenção para um dos maiores problemas daquele tempo: uma forma de se obter a longitude por meio de um cronômetro.

Berthoud obteve uma boa reputação inicial no campo da cronometria marítima ao fazer uma grande e impressionante máquina, seu Horloge Marine Nº 1. Completo em 1761, a princípio ela não deu bons resultados, porém demorou-se até perceberem isto. Ademais, em 1763, ele publicou seu primeiro grande trabalho, um tratado em dois volumes denominado Essai sur l’Horlogerie (“Ensaio sobre a Relojoaria”), exatamente no momento em que a Academia foi convidada a enviar observadores a Londres, a fim de testemunhar o desmonte e explanação do quarto cronômetro de John Harrison, o H4. Com tal propaganda, Berthoud foi a escolha óbvia da Academia, que precisava de alguma pessoa qualificada (leia-se, relojoeiro) para enviar junto com seu representante, Charles Camus.

Horloge Marine nº 1

Horloge Marine nº 2

Ele foi a Londres em duas oportunidades, em 1763 e 1766. Neste tempo, construiu dois cronômetros relativamente mal-sucedidos, baseado em descrições do H4 e suas tecnologias a ele relatadas por um leigo, Jerome Lalande, que dizia ter visto o histórico cronômetro[iii]. De qualquer forma, pela análise de ambos os trabalhos, claramente vê-se que Berthoud não compreendia muito bem os princípios envolvidos na tecnologia. Após, ele começou sua própria série de cronômetros movidos por meio de pesos, os Horloges Marines. O Nº 8 desta série, por pura e grande sorte, já que possuía diversos problemas técnicos, se deram bem em dois importantes testes, em 1768-69 e em 1771-72.

Desta forma, construindo diversos cronômetros em curto espaço de tempo, com as mais variadas tecnologias, mesmo sem entendê-las propriamente, apenas na base da tentativa e erro, e contando com um pouco de sorte e uma boa dose de propaganda sobre seus feitos, Berthoud foi nomeado Relojoeiro Mecanicista do Rei e da Marinha, o título de maior prestígio dentre a classe relojoeira, acompanhado, claro, de uma gorda pensão vitalícia.

Por tudo isso (veja a cronologia dos eventos abaixo), Le Roy ficou decepcionado. Ele, cediço de sua grande capacidade técnica, e pensando ter contribuído em muito por meio da sua grande obra para com seu rei e para com seu país na busca da solução para o maior problema científico até então, foi preterido em nome de um estrangeiro que só sabia copiar soluções alheias!

Para Le Roy, as idas e vindas de Berthoud na escolha de seus escapamentos só demonstravam uma coisa: a grande incompetência deste último e sua falta de princípios cronométricos, isto é, Berthoud falhava nos princípios mais básicos de relojoaria.

O grande estopim para a cólera de Le Roy foi a publicação por Berthoud, em 1773, do ensaio Traité des Horloges Marines (“Tratado sobre os Cronômetros Marítimos”), onde este procurava relatar a história dos cronômetros marítimos sem ao menos mencionar o trabalho de Le Roy. O governo francês mandou imprimir e distribuir dezenas de cópias deste trabalho e ainda aumentou em 50% a pensão de Berthoud. Possesso, Le Roy acusou Berthoud de saber apenas se propagandear e publicar seus próprios méritos, ao passo em que admite uma completa ineptidão nesta área, “já que estava ocupado trabalhando, ao invés de falando”.

A partir de então, até sua morte em 1785, desiludido com a falta de reconhecimento e crédito, Pierre Le Roy abandonou suas pesquisas e desenvolvimentos e foi para o campo, enquanto Ferdinand Berthoud continuou tocando seus negócios e arrumando maneiras de aumentar ainda mais sua pensão anual. Aliás, algo que fez de maneira formidável, visto que foi capaz de manter sua posição através de três regimes totalmente diferentes e um dos períodos mais turbulentos da história francesa.

Le Roy, desde cedo, tinha todas as possibilidades advindas do sucesso de seu pai. Ainda mais, tinha uma mente extraordinária e um conhecimento ímpar das minúcias relojoeiras, que lhe permitiram encontrar da forma radical, e ainda sim lógica, diversas soluções. Porém, infelizmente, era por demais recatado, e não teve tato para procurar o apoio dos ricos e poderosos que poderiam lhe ajudar, ao contrário do rival.

As críticas de Le Roy deixaram sua marca, e, conseqüentemente as gerações seguintes tendem a desabonar o trabalho de Berthoud como uma bobagem insignificante e irrelevante, no entanto, em defesa de Berthoud, vale transcrever aqui uma excelente passagem proferida por David S. Landes em seu livro Revolution in Time[iv]:

“Isto é injusto. Berthoud não era o mecanicista que foi Le Roy. Ele realmente não compreendia os princípios básicos; ele até mesmo pode não ter compreendido seu próprio trabalho. Mas era um artesão soberbo, e tinha a mente aberta (muito aberta?) e, uma vez encontrada a direção certa, ele fez máquinas que trabalharam bem. Ele tinha a tenacidade que Le Roy não possuía, de forma que o curso do desenvolvimento cronométrico na França passou por seus relógios e não pelos de Le Roy. Depois de produzir seu impressionante conjunto de peças experimentais, todas elas desapontadoras, Berthoud acertou na loteria com seu Nº 9 de 1771, que começou com um escapamento de cilindro em rubi, mas terminou após três alterações com um escapamento de detenção pivotado – seu primeiro uso bem sucedido de um escapamento livre (destacado). Este era, como Le Roy apontou, desajeitado, uma máquina desnecessariamente complexa, porém marcou um ponto de virada no trabalho de Berthoud: a partir daí ele mais ou menos manteve-se nos escapamentos de detenção, melhorando-os desde então.”

No fim das contas, de todos os pioneiros da cronometria, é Berthoud quem deixou os melhores e mais claros legados do seu trabalho e dos seus métodos. Nisto ele era incansável e perfeito, cobrindo todos os aspectos. Estima-se que ele tenha publicado aproximadamente 4000 páginas de texto, ilustrado por mais de 120 gravuras. Os desenhos e descrições dos cronômetros são freqüentemente tão completos e detalhados que os mecanismos poderiam ser reconstruídos por eles, corretos em todos seus detalhes essenciais. Todas as suas ferramentas e equipamentos, e muitos de seus relógios, são preservados no Conservatoire des Arts et Métiers (“Conservatório das Artes e Ofícios”), em Paris, aonde formam uma singular e impressionante exposição.

Montre Marine nº 6, por Ferdinand Berthoud

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Cronologia da rivalidade

A disputa entre os dois personagens começou em 1754, de forma diplomática, quando ambos depositaram na Academia Real de Ciências francesa pacotes selados contendo a descrição de suas propostas para cronômetros “de Longitude”. Apenas o mecanismo de Le Roy foi aprovado e construído (1756), porém sem qualquer futuro[v].

Em 1761, Berthoud completa seu primeiro Horloge Marine (“Cronômetro Marítimo”), com muitas características “inspiradas” nas máquinas de Harrison, porém bastante primitivo. E em 1763 publica seu Essai sur l’Horlogerie, que lhe ajudou a construir uma imagem de “expert” em cronômetros marítimos, já que ele continha uma completa descrição do seu Horloge Marine Nº 1. No mesmo ano, como vimos, tal tratado foi conclusivo para que Berthoud fosse selecionado pela Academia para ir a Londres descobrir os segredos do H4, onde não obteve sucesso.

Ainda em 1763, Pierre Le Roy apresenta seu segundo cronômetro marítimo para a Academia, bem como o faz Berthoud, que descartou completamente os princípios de seu cronômetro Nº 1 ao fazer seu Horloge Marine Nº 2, ainda mais baseado nas tecnologias observadas nos mecanismos de Harrison. No mesmo ano, Berthoud finaliza seu Montre Marine Nº 3, muito similar em aparência e tamanho ao H4, porém imensamente mais primitivo.

Montre Marine nº 3

Em 1764, Le Roy apresenta à Academia seu terceiro cronômetro marítimo, que, testado, apresentou resultados inconclusivos. Já em 1765, Berthoud completa seu Horloge Marine Nº 4, que serviria de base para sua série de relógios movidos a peso.

No ano de 1766, Berthoud volta a Londres e novamente não obtém sucesso em analisar o H4, pois Harrison recusava-se a mostrá-lo gratuitamente[vi], porém, bom de papo, consegue que Thomas Mudge, o então encarregado de analisar o H4 para a Comissão da Longitude, lhe explique o mecanismo. Este fato tornou Berthoud muito estimado dentre os influentes de Paris, tanto que no mesmo ano o relojoeiro recebeu ordens diretas do rei Luis XV para que produzisse dois cronômetros; se eles fossem bem sucedidos, Berthoud receberia uma pensão vitalícia e um título prestigioso.

Ainda em 1766, Pierre Le Roy apresenta seus revolucionários cronômetros A e S, já descritos, pelo qual recebe em 1769 um prêmio duplo de 4000 livres para que continue com suas pesquisas e desenvolvimento dos mecanismos, após serem amplamente testados.

Em 1768, Berthoud finalmente apresenta seu Horloge Marine Nº 8, com algumas características já encontradas no trabalho de Le Roy. Ele é testado pela Academia e aprovado, apesar das óbvias falhas conceituais como, entre outras, o uso de pesos ao invés de tambor de corda, escapamento de cilindro, e necessidade de uso de uma tabela para se calcular a compensação em virtude da temperatura. Em 1770, como prometido, Berthoud ganha o direito a pensão e o pomposo título Horloger-Mécanicien da Sa Majesté et de la Marine.

Horloge Marine nº 8 Em 1771, a batalha decisiva: os cronômetros A e S de Le Roy e o Horloge Marine Nº 8 de Berthoud são enviados para teste na fragata La Flora, aonde, pela mais pura sorte de Berthoud, e também azar de Le Roy, alguns acidentes incapacitam as obras deste último e só o cronômetro Nº 8 mantém-se intacto, e ainda por cima mantendo uma boa marcha. Mesmo assim, e ainda que ganhando um prêmio de consolação para que mantivesse suas pesquisas, Le Roy insiste em suas críticas ao relógio do adversário, afirmando que o desenho do modelo é tecnicamente defeituoso, e que a boa marcha obtida no teste não era mais de que um golpe de sorte, que não poderia ser repetido. Berthoud apenas limita-se em afirmar a superioridade de seu Nº 8.

Em 1773, Berthoud publica seu Traité des Horloges Marines, propondo resumir o trabalho realizado na França em torno dos cronômetros “de longitude”, especialmente os seus próprios, entretanto deixando de lado o trabalho de Le Roy. Este respondeu com seu Précis des recherches faites em France depuis l’année 1730 pour la detérmination des longitudes em mer (“Compêndio das pesquisas feitas na Franças depois do ano 1730 para a determinação da longitude no mar”), porém, desencorajado pela falta de reconhecimento e suporte financeiro, ao contrário de Berthoud que ainda ganhou um suplemento de 50% sobre sua pensão, abandonou todas as tentativas de desenvolver seus cronômetros marítimos e mudou-se para o campo.

No ano seguinte, Berthoud e Le Roy ainda debateriam por meio de panfletos, no entanto seria a última vez que bateriam boca publicamente.

Em 1784, Ferdinand Berthoud passa o controle de seus negócios para o sobrinho Louis Berthoud, que já demonstrava ser um relojoeiro muito superior, em todos os aspectos, ao seu tio.

Por fim, em 1785, morre Pierre Le Roy, aos sessenta e sete anos, acabando a grande contenda.


[i] Por isocronismo entenda a oscilação do órgão regulador em intervalos regulares. Um relógio é isócrono quando a oscilação do seu pêndulo, ou então do seu balanço tem a mesma duração independentemente da sua amplitude.

[ii] Tradução livre, conforme Rupert T. Gould, John Harrison an His Timekeepers, 4ª Ed. (Greewich: Museu Marítimo Nacional, 1978), p. 14.

[iii] Paira dúvida sobre este assunto, conforme Boletim da NAWCC, nº 359, de dezembro de 2005, pp. 733-743.

[iv] Tradução livre de David S. Landes, Revolution in time (Massachusetts: Harvard University Press, 2000), p. 179.

[v] Por motivos inexplicados, a proposta de Berthoud permaneceu lacrada até 1976!

[vi] Na verdade, Harrison exigia £4.000 para mostrar o H4, o que dá aproximadamente US$ 3 milhões no dinheiro de hoje.

Bibliografia

Landes, David S. Revolution in time. Cambridge: Harvard University Press, 2000.

Maia, Flavio. “O escapamento de cronômetro.” Relógios Mecânicos. julho de 2007. http://relogiosmecanicos.vilabol.uol.com.br/detencao.htm (acesso em 3 de novembro de 2007).

Randall, Anthony G. The Time Museum Catalogue of Chronometers. Rockford: The Time Museum, 1992.

sábado, 18 de julho de 2009

O zumbido do diapasão

Por Igor de Lacerda e Schütz,
Julho de 2009

Diapasão

No início da década de 60 do século passado, o mundo observou uma revolução na forma de se medir o tempo em dispositivos pessoais: pela primeira vez foi disponibilizado ao público um relógio que definitivamente, após mais de 300 anos, abandonara o balanço e mola como elementos reguladores.

A empresa responsável pelo feito: Bulova. Seu inventor: Max Hetzel. O relógio: Accutron.

Era uma vez...

As propriedades ressonadoras do diapasão são conhecidas pela humanidade há séculos. A qualidade desde instrumento como órgão regulador para um instrumento de medição de tempo foi reconhecida pela primeira vez por Louis François Clément Breguet (1804-1883), neto do famoso relojoeiro Abraham-Louis Relógio de mesa diapasão, por Louis François C. BreguetBreguet, que patenteou um mecanismo com diapasão em 26 de outubro de 1866. Trata-se de um relógio de mesa elétrico com um diapasão de 25 cm vibrando a 100 Hz. Em uma das suas extremidades estava ligada uma espécie de âncora, como as de um relógio suíço, que liberava a roda de escape.

<- Clique no relógio para ver o mecanismo em funcionamento.

Um relógio foi produzido com este ressonador, que hoje se encontra exposto no Musée International d’Horlogerie (MIH), porém não deve ter tido muito sucesso, visto que sua utilização parou por aí.

Em 1952, um engenheiro eletrônico de 31 anos, suíço de Basel, chamado Max Hetzel, empregado no Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Bulova Watch Company em Bienne, foi Max Hetzelincumbido diretamente pelo presidente da empresa a desenvolver um relógio elétrico que fosse mais preciso que os da concorrência.

Na época, algumas empresas já haviam lançado no mercado alguns relógios elétricos, mas estes, apesar de movidos a bateria, ainda utilizavam o velho sistema de roda de balanço e mola, não obtendo assim qualquer vantagem significativa em termos de precisão frente aos relógios mecânicos.

Hetzel ignorou este modelo de funcionamento e previu que o futuro da relojoaria estaria ligado ao recentemente descoberto transistor. A partir daí começou seus estudos.

No ano seguinte, tendo recebido finalmente um transistor de baixa voltagem, modelo Raytheon CK 722, Hetzel deu início ao desenvolvimento de seu primeiro protótipo, que não apenas seria um relógio elétrico, mas também um relógio eletrônico; o primeiro do mundo! Recebeu a patente suíça nº 312290, de 19 de junho de 1953.

Provavelmente por não ter formação como relojoeiro, em seu protótipo Max Hetzel deu uma excelente demonstração de pensamento lateral: ao invés de confiar em molas e engrenagens, optou por um diapasão como órgão regulador para seu relógio.

Protótipo Accutron Pronto em 1955, o protótipo era um pequeno movimento feito à mão, embalado numa caixa de madeira. Possuía freqüência de 200 Hz, era alimentado por uma bateria de 1,5 V e utilizava um sistema similar à versão final do Accutron: um pequeno pino, ligado a um dos braços do diapasão, empurrava a cada ciclo uma engrenagem com 120 dentes minúsculos, que por sua vez movimentava os outros componentes.

Foram construídas oito cópias deste protótipo.

Muitos dentro da Bulova não acreditavam no modelo de funcionamento, mas o presidente da companhia, Arde Bulova, foi um entusiasta da tecnologia, incentivando e promovendo Hetzel, até que este foi parar na sede de Nova Iorque, como Físico Chefe da empresa.

Hetzel trabalhando

Lá, em 1959, Hetzel e seu colega William O. Bennett finalmente terminaram o desenvolvimento do Accutron, no que culminaria no calibre Accutron 214.

Este movimento, com 12,5 linhas (28,75 mm) e 5,5 mm, difere dos primeiros protótipos na alimentação, que utiliza uma bateria Engrenagem motora, Accutron cal. 214de mercúrio de 1,35 V, e na freqüência de 300 Hz, o que acarretou no uso de uma pequena engrenagem motora com 300 dentes incrivelmente minúsculos: um centésimo de milímetro cada! Realmente, o Accutron 214 foi uma maravilha da miniaturização em sua época.

Anunciado em 1960 pelo então presidente da Bulova Watch Co. – o ex-general e herói da Segunda Guerra Omar N. Bradley – e vendido ao público em 25 de outubro de 1961, o Bulova Accutron foi um sucesso de vendas em todo mundo, especialmente no mercado americano, sempre orgulhoso de seus próprios produtos.

Propaganda A precisão do Accutron – variação máxima de um minuto ao mês (dois segundos ao dia) – era destacada orgulhosamente e garantida por escrito pela Bulova. Precisão esta que deixava os melhores relógios mecânicos do mundo comendo poeira, e tudo a um preço que cabia no orçamento de um trabalhador de classe média!

A disparidade entre o desempenho do Accutron frente aos tradicionais relógios mecânicos fez com que muitas marcas, suíças e japonesas, licenciassem o mecanismo diapasão para uso em suas linhas. A mola e o balanço simplesmente não podiam acompanhar a precisão do diapasão.

O lançamento do Bulova Accutron marcou o início da revolução da relojoaria pessoal, que culminou no advento da máquina quartzo.

O zumbido do diapasão
O Accutron na prática
Modelos para todos os gostos
A investida suíça
Inevitável fenecimento
Fatos e curiosidades interessantes
Bibliografia

Modelos para todos os gostos.

O Accutron realmente foi uma revolução!

Começando pelo calibre 214 de 1960, a Bulova ainda lançou outras máquinas com diapasão, bem como licenciou a tecnologia para diversas outras empresas, de várias nacionalidades.

A linha Accutron contava com os seguintes calibres:

Bulova Accutron 214:

Bulova Accutron cal. 214

Introdução: 1960
Diâmetro: 28,75 mm
Espessura: 5,5 mm
Rubis: 15
Freqüência: 300 Hz
Alimentação: 1,35 V
Variantes: 2140 (214 original)
2141 (com hack, 1962)
2142 (com segunda zona horária, 1963)
2143 (1970).
Observações:

É o calibre que serviu de base para todos os outros e exclusivo da Bulova. Uma de suas características principais é a falta de coroa: o acerto dos ponteiros se dá por meio de uma alça na parte traseira do relógio. O acesso à bateria é feito por uma tampa de rosca específica para este fim.

 

Bulova Accutron 218:

Bulova Accutron cal. 218

Introdução: 1965
Diâmetro: 28,75 mm
Espessura: 4,9 mm
Rubis: 13
Freqüência: 360 Hz
Alimentação: 1,35 V
Variantes:

2180 (218 original, nunca produzido comercialmente)
2181 (com data, 1965)
2182 (com dia e data, 1968)
2183 (sem ponteiro de segundos, 1968)
2185 (com data, ponteiro GMT e ponteiro de horas com acerto independente, 1968)
2186 (com mostrador digital mecânico, 1968).
Este calibre foi utilizado pela Universal Genève com o nome “Unisonic” (calibres 51 até 54) e pela Citizen com o nome “Hi-Sonic”.

Observações:

Foi criado como uma alternativa simplificada ao calibre 214 e mais precisa, em razão do aumento da freqüência (de 300 Hz para 360 Hz). Esta calibre conta com uma coroa normal e o acesso à bateria se dá normalmente, expondo todo o movimento.

 

Bulova Accutron 2300:Bulova Accutron cal. 2300
Introdução: 1970
Diâmetro: 19,40 mm
Espessura: 5,2 mm
Rubis: 13
Freqüência: 480 Hz
Alimentação: 1,35 V
Variantes:

2300 (sem ponteiro de segundos)
2301 (com ponteiro de segundos, 1971)
2302 (com ponteiro de segundos e data, 1971)
2303 (com ponteiro de segundos, dia e data, 1971)
2312 (com ponteiro de segundos, data e platina principal maior, 1972)
2313 (com ponteiro de segundos, dia, data e platina principal maior, 1972).
Este calibre foi utilizado pela Universal Genève com o nome “Electric” em sua linha feminina (calibres 47 e 48).

Observações:

É o menor movimento diapasão já lançado, e sua alta freqüência de ressonância (480 Hz) confere uma precisão superior.

 

Bulova Accutron 219:

Bulova Accutron cal. 219

Introdução: 1972
Diâmetro: 28,75 mm
Espessura: 4,4 mm
Rubis: 8
Freqüência: 360 Hz
Alimentação: 1,35 V
Variantes:

2190 (nunca produzido comercialmente)
2191 (sem data, 1972)
2192 (com data, 1972)
2193 (com data e dia, 1972).
Este calibre foi utilizado pela Citizen com o nome “Hi-Sonic 05” (calibres 3700, 3701 e 3711).

Observações:

É o primeiro movimento com diapasão assimétrico. Sua produção foi bem curta e hoje é um calibre colecionável.

 

Bulova Accutron 221:

Bulova Accutron cal. 221

Introdução: 1973
Dimensões: 19,40 mm de altura e 17,40 mm de largura
Espessura: 4,0 mm
Rubis: 15
Freqüência: 440 Hz
Alimentação: 1,35 V
Variantes:

Não há

Observações:

Único movimento Accutron retangular. Seu diapasão tem a forma de um círculo, a fim de integrar um movimento compacto. Este calibre apresentou falhas de projeto, e logo foi descontinuado.

 

Bulova Accuquartz 224:

Bulova Accutron cal. 224

Introdução: 1973
Diâmetro: 28,75 mm
Espessura: 4,9 mm
Rubis: 13
Freqüência: 341 ⅓ Hz
Alimentação: 1,35 V
Variantes: 2240 (sem data, 1973)
2241 (com data, 1973)
2242 (com dia e data, 1973).
Este calibre foi utilizado pela Universal Genève com o nome “Uniquartz” (calibre 73).
Observações:

Trata-se de um movimento híbrido, que utiliza um cristal de quartzo como órgão regulador. Este serve de base para que o circuito integrado do relógio sincronize a freqüência do diapasão, que neste caso serve apenas órgão motriz para as engrenagens do mecanismo. É o único movimento que mistura ambas as tecnologias (quartzo e diapasão).

Visão explodida do Bulova Accuquartz cal. 224

O zumbido do diapasão
O Accutron na prática
Modelos para todos os gostos
A investida suíça
Inevitável fenecimento
Fatos e curiosidades interessantes
Bibliografia

A investida suíça.

Em 1963, Max Hetzel saiu da Bulova e voltou para Suíça como Diretor de Pesquisa Aplicada do Laboratório Suíço para Pesquisas Relojoeiras (‘Laboratoire Suisse de Recherches Horlogère’, LSRH), em Neuchâtel. Ali, foi o responsável pelo desenvolvimento do Swissonic, a versão local do movimento diapasão.

Pronto em 1965 pelas mãos do Centro Eletrônico Relojoeiro (‘Centre Électronique Horlogère’, o famoso CEH), o Swissonic tinha um desenho bem diferente do Accutron, a fim de se evitar a infração da patente da Bulova, porém, ainda assim a empresa conseguiu bloquear a produção do movimento, que jamais foi comercializado (apenas três unidades produzidas).

Swissonic 100:

Swissonic 100

Freqüência: 480 Hz
Precisão: +/- 1,5 segundos/dia
Dentes da engrenagem motora: 200
Diâmetro da engrenagem motora: 1,5 mm

Em novembro de 1968, a Bulova e a Ébauches SA. firmaram um acordo de licenciamento permitindo que esta produzisse movimentos utilizando a tecnologia diapasão. Nestas bases, em menos de um ano o projeto do “Mosaba” (‘Montre sans balancier’, “Relógio sem balanço”) estava concluído. Em 1969, o ESA 9162 foi lançado comercialmente, sendo um sucesso estrondoso de vendas.

O movimento da Ébauches SA. é o ápice tecnológico dos movimentos diapasão em termos de qualidade de construção, Diapasão do ESA 9162robustez e precisão. Seu principal diferencial é a presença de dois pequenos microreguladores na base do diapasão, que são utilizados para compensação do elemento ressonador. Isto possibilita que o movimento seja imediatamente regulado para uso tanto com as antigas baterias de mercúrio, de 1,35 V, quanto para as novas de óxido de prata, de 1,55 V. Permite também o ajuste da distância entre as pontas da forquilha, a fim de compensar o efeito da idade sobre o magneto permanente.

Funcionamento do ESA cal. 9162

Outro destaque é sua construção modular: o primeiro módulo, chamado “módulo do mecanismo”, contém a platina principal, mecanismo de data, minuteria e as engrenagens de redução restantes. O segundo módulo, chamado “módulo do oscilador”, contém a ponte traseira, diapasão, circuitos eletrônicos, engrenagem motora e primeira engrenagem de redução.

Módulo do mecanismo do ESA 9162

Módulo do oscilador do ESA 9162

Em 1970, a ESA encomendou secretamente à Dubois Dépraz SA. um módulo cronógrafo para ser utilizado no calibre ESA 9162. O novo calibre, lançado em 1972, foi denominado ESA 9210: o primeiro e único cronógrafo diapasão produzido!

ESA 9162:

ESA cal. 9162

Introdução: 1969
Diâmetro: 29,00 mm
Espessura: 4,85 mm
Rubis: 12
Freqüência: 300 Hz
Alimentação: 1,35 V ou 1,55 V
Variantes:

9162 (com data, 1969)
9164 (com dia e data, 1969).
Este calibre foi utilizado por diversas marcas: Baume & Mercier como “Tronosonic” (calibres 19162 e 19164), Certina como “Certronic” (calibres 29.151 e 29.152), Derby como “Mosaba”, Eterna como “Eternasonic” (calibres 1550 740 e 1551 742), Longines como “Ultronic” e “Titronic” (calibres 6312 e 6332), Movado e Zenith como “XL-tronic” (calibres 500 e 505), Omega como “Electronic f300 Hz” (calibre 1250), Rado como “Electrosonic” (calibres 740 e 742), e Tissot como “Tissonic” (calibres 2010 e 2020).

 

ESA 9210: ESA cal. 9210
Introdução: 1972
Diâmetro: 30,40 mm
Espessura: 7,95 mm
Rubis: 12
Freqüência: 300 Hz
Alimentação: 1,35 V ou 1,55 V
Variantes:

Este calibre foi utilizado por Baume & Mercier (calibre 19210), Certina (calibre 749), Derby, Longines (calibre 749.2) e Omega (calibre 1255).

Observações:

O módulo do cronógrafo foi construído exclusivamente em cima da variação ESA 9164 do Mosaba. A disposição dos acumuladores e segundeiro é a mesma do ETA 7750. A produção total foi de 21.000 unidades.

A Omega SA. teve um especial interesse na tecnologia diapasão, sendo a maior fabricante suíça de relógios com este sistema. Seus Electronic f300 Hz, a maioria certificada como cronômetro, são os modelos mais comuns de serem encontrados no Brasil com esta tecnologia, mais até que os próprios Accutron.

Max HetzelTamanho interesse motivou a empresa a desenvolver seu próprio movimento: o Omega Megasonic.

Com a colaboração do próprio Max Hetzel, a Omega lançou os modelos Megasonic em 1973, sob as linhas Constellation e Seamaster.

Composta dos calibres 1220, com data, e 1230, com dia e data, os Megasonic eram completamente diferentes de tudo o que já havia sido lançado em termos de diapasão: primeiro, a freqüência subiu para incríveis 720 Hz; segundo, o diapasão, assimétrico, possuía apenas uma extremidade móvel, sendo a outra fixa na platina; terceiro, e mais radical, foi introduzido um micromotor magnético, no que seria o primeiro passo em direção aos micromotores utilizados posteriormente nos relógios quartzo.Diapasão do Omega cal. 1220

Em razão da velocidade de ressonância do diapasão (720 vezes por segundo!), haveria um desgaste muito prematuro dos componentes caso a transmissão do movimento se desse mecanicamente. A solução foi o uso de um micromotor que se acopla magneticamente às engrenagens redutoras, com desgaste zero entre estes componentes mais sensíveis.Micromotor 'La Souris' do Omega cal. 1220

Este micromotor, apelidado por Hetzel de ‘La souris’ (“O camundongo”, em francês), é uma característica única deste movimento: trata-se de um pequeno compartimento de cobre selado hermeticamente, com interior preenchido em óleo. Dentro, há uma minúscula engrenagem motora, com apenas 1,2 mm de diâmetro e imãs polarizados em sua circunferência, flanqueada por duas palhetas com rubis; uma de cada lado.

Micromotor do Omega cal. 1220

Fixado na extremidade móvel da forquilha, o micromotor vibra com o movimento do diapasão, fazendo com que a engrenagem motora sacoleje ali dentro. Nesse sacudir, a engrenagem se apóia nas mencionadas palhetas, induzindo assim seu movimento, que é transmitido magneticamente às engrenagens redutoras, que a partir daí dão vida ao relógio.

Modelo de funcionamento do micromotor 'la souris' do Omega cal. 1220
Funcionamento do Omega cal. 1220
Omega 1220:

Omega cal. 1220

Introdução: 1973
Diâmetro: 29,00 mm
Espessura: 5,00 mm
Rubis: 15
Freqüência: 720 Hz
Alimentação: 1,35 V
Variantes:

1220 (com data, 1973)
1230 (com dia e data, 1973).

Observações:

A produção total, incluído ambas as variantes, foi de 43.000 unidades.

O zumbido do diapasão
O Accutron na prática
Modelos para todos os gostos
A investida suíça
Inevitável fenecimento
Fatos e curiosidades interessantes
Bibliografia

Inevitável fenecimento.

Os movimentos diapasão, infelizmente, tiveram vida curta. Vivendo sob a sombra dos mecanismos quartzo, o diapasão abriu lugar para o surgimento da tecnologia quartzo assim que ela se mostrou uma alternativa muito mais precisa, robusta e barata que suas antecessoras.

Os suíços foram os primeiros a abandonar o barco. Primeiro a Omega, com a descontinuação do Megasonic em 1975, seguida então pela ESA, com o término do projeto Mosaba em 1976.Movimento Beta 21

Ambas as empresas, mais o CEH e outras 14 companhias haviam dedicado seus esforços de pesquisa e desenvolvimento em favor do projeto Beta 21, o primeiro movimento quartzo portátil da Suíça, lançado comercialmente em 1970.

Desde então, com o surgimento de novos processos de produção, que tornaram mais fácil e barata a fabricação dos mecanismos quartzo, já não compensava manter os defasados diapasão em linha.

A Bulova abandonou a tecnologia em 1977, substituindo os antigos Accutron pelos novos Accuquartz, que, apesar de manter o nome, já não tinham relação com o calibre Bulova 224, sendo mecanismos quartzo “normais”, com motores de passo.

Bulova Motorquartz

Apesar da breve existência, o desenvolvimento do sistema diapasão não foi em vão. As diversas variações sobre o tema serviram de base para experimentos, testes e aquisição de expertise e know how pela indústria relojoeira.

Diversas tecnologias primeiramente utilizadas nos movimentos diapasão foram posteriormente aproveitadas na fabricação dos relógios quartzo, tais como: o uso de transistores bipolares; os micromotores magnéticos; os cortes microscópicos precisos; os processos de produção de componentes eletrônicos; o uso do magnetismo para conservação da energia, etc.

Hoje, passados mais de 30 anos do último exemplar fabricado, os movimentos diapasão são muito queridos e procurado por aficionados de todo o mundo como itens de colecionador.

A genialidade do design básico de Max Hetzel, que garantiu a simplicidade do funcionamento e manutenção do sistema, aliada à qualidade e esmero empregados na sua produção, fizeram com centenas de milhares de exemplares com esta tecnologia sobrevivessem todas estas décadas ainda mantendo ótima precisão.

Os relógios diapasão têm um lugar de destaque na história da relojoaria, pois representam o primeiro passo da indústria relojoeira em direção a uma nova era da humanidade: a Era da Eletrônica.

O zumbido do diapasão
O Accutron na prática
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A investida suíça
Inevitável fenecimento
Fatos e curiosidades interessantes
Bibliografia

O Accutron na prática.

O funcionamento do sistema diapasão é genial na sua simplicidade, precisão e confiabilidade, mas isto só foi possível em razão de diversos avanços técnicos em áreas como eletrônica, micromecânica e física.

Tomemos como exemplo o Accutron 214, o primeiro movimento com a nova tecnologia:

cal_Bulova214

O circuito resistor/capacitor é responsável pelo impulso inicial dado na extremidade esquerda do diapasão. Ali há um magneto permanente, feito de Alnico, que se move para a direita, passando pela bobina de excitação, gerando por indução eletromagnética voltagem suficiente para chavear o transistor, que de coletor passa a ser emissor, permitindo o fluxo da corrente elétrica pelo circuito. Esta corrente alimenta as bobinas motoras, fixas na platina, que se tornam imãs e repelem os magnetos permanentes do diapasão, num movimento de afastamento e aproximação dos dentes da forquilha – a ressonância do diapasão. Neste vai e vem o transistor novamente é chaveado, gerando mais um impulso aos magnetos permanentes e assim perpetuando o funcionamento do mecanismo, a 300 Hz, ou seja, 300 vezes por segundo!

Clique na imagem acima e veja o mecanismo Accutron em ação.

Há de se notar uma solução inteligente: a passagem dos magnetos permanentes dentro das bobinas de acionamento gera uma corrente oposta à da bateria, que ajudam a prolongar consideravelmente a vida útil desta (aproximadamente 80%).

A transformação do movimento linear da forquilha do diapasão em movimento circular dos ponteiros se dá da seguinte forma: uma pequena palheta com rubi na ponta é fixada numa das metades do diapasão. Esta palheta móvel, a cada ciclo de ressonância do diapasão, empurra um dente da engrenagem motora, que por sua vez é apoiada por uma segunda palheta, fixa na platina do movimento, que impossibilita que a engrenagem se movimente no sentido oposto.

Trem de engrenagens, Accutron cal. 214 A engrenagem motora é um dos destaques do mecanismo: feita de cobre-berílio, é extraordinariamente pequena, com 2,4 mm de diâmetro, 0,04 mm de espessura e 300 dentes, cada um com 0,01 mm de comprimento. Dá uma volta completa por segundo (são 300 dentes por segundo!). Em um ano, gira 38 milhões de vezes!

Em razão das pequenas forças envolvidas, não sofre desgaste, mesmo sem ser lubrificada.

Funcionamento do Bulova Accutron cal. 214

Daí em diante, o mecanismo é como de qualquer outro relógio mecânico: a engrenagem motora é ligada a uma série de rodas redutoras até chegar aos ponteiros.

Vista explodida do trem de engrenagens do Bulova Accutron cal. 214

Para os mais técnicos e engenheiros de plantão que se interessaram pelo funcionamento, vejam aqui um explicação mais detalhada do funcionamento (em inglês).

O zumbido do diapasão
O Accutron na prática
Modelos para todos os gostos
A investida suíça
Inevitável fenecimento
Fatos e curiosidades interessantes
Bibliografia

Fatos e curiosidades interessantes.

  • A engrenagem motora do Accutron era um segredo industrial absolutamente protegido pela Bulova. Tanto é que, incapaz de reproduzir sua fabricação na Suíça, a ESA tinha de comprar a pequena peça dos americanos.
  • Além dos movimentos diapasão americanos e suíços que vimos acima, Inglaterra, Alemanha, Japão e União Soviética também se aventuraram na tecnologia: os três primeiros somente em relógios de mesa e parede, e a URSS num mal sucedido movimento para relógio de pulso.

    Os relógios de mesa e parede foram desenvolvidos em cima de uma patente de escapamento magnético criado pelo americano Henry Stevenson Baker em 29 de setembro de 1931 (US# 1.825.382), melhorado por Reinhard Straumann em 4 de fevereiro de 1943 (US# 2.373.429) e, finalmente, aperfeiçoado pelo inglês C. F. Clifford em 23 de maio de 1950 (US# 2.762.222). Com base no desenho de Clifford, as empresas Junghans-Diehl (Alemanha) e Jeco (acrônimo de Japan-Electric-Clock Co.) criaram suas variantes, utilizadas em relógios grandes.
    Ainda hoje é possível encontrar relógios de parede com estes escapamentos, que, infelizmente, não vamos detalhar aqui por que fogem ao escopo deste texto, mas que podem ser vistos aqui (em alemão, mas com boas imagens)

    No entanto, é de grande interesse o diapasão soviético: trata-se de uma cópia exata do calibre Accutron 214 da Bulova, a qual não se sabe se era fruto da quebra de patente ou se era uma cópia licenciada.
    Apelidado de ‘Kammerton’ (“Diapasão” em russo), foi fabricado pela ‘The First Moscow Watch Co.’, i.e. Slava sob a denominação calibre 2937, e lançado em 1962. Informações não oficiais sugerem que foram produzidos apenas mil relógios com este calibre, portanto são muito raros.

    A princípio, os russos tiveram grandes dificuldades para fabricar a delicada engrenagem motora, com seus 300 minúsculos dentes. Descobriram depois de um bom tempo que a razão para isto era as vibrações produzidas na fábrica pelo metrô de Moscou. Simplesmente mudaram as instalações para fora da cidade.
  • O Bulova Accutron já esteve a ainda está na Lua. No entanto, diferentemente do seu rival Speedmaster da Omega, que foi e voltou no pulso dos astronautas, o Relógio de painel Bulova AccutronBulova Accutron, na figura do calibre 214, esteve na Lua como o relógio dos painéis de controle dos foguetes e módulos espaciais. 
    Em todas as missões lunares, desde a Apollo 11, de 1969, em que o homem pisou pela primeira vez em nosso satélite natural, os astronautas deixaram na superfície lunar instrumentos científicos que contém o calibre 214 como regulador. Estão no Mar da Tranqüilidade até hoje!
    O Accutron era o relógio oficial de todos os veículos utilizados nas missões espaciais das décadas de 60 e 70.
  • Aliás, não só nas missões espaciais, o Bulova Accutron era o relógio utilizado no painel de qualquer veículo militar norte-americano de grande porte, o que inclui porta-aviões, navios, caças supersônicos e até mesmo no Air Force One!
  • Um dos modelos mais conhecidos de relógio com a tecnologia diapasão é o Bulova Accutron Spaceview, pela sua característica ausência de mostrador, assim expondo o movimento e seu diapasão ao olhar. O que nem todos sabem, é que o Spaceview foi criado “sem querer”! Propaganda de lançamento do Bulova Accutron
    A princípio, a Bulova havia criado o modelo como uma peça de demonstração a ser utilizada pelos revendedores para mostrar ao público como o relógio funcionava. Porém, muitos consumidores se encantaram exclusivamente pelo modelo, que naturalmente acabava sendo vendido pelo revendedor, que encomendava outro à Bulova.
    Percebendo que tinha em mãos um campeão de vendas, a Bulova acrescentou o Spaceview à sua linha normal em 1962, que se tornou um dos modelos mais vendidos da marca.
    Bulova Accutron Spaceview chapter ring
  • Outro modelo de muito sucesso da linha Accutron foi oAstronauta Scott Carpenter com seu Accutron Astronaut Astronaut, desenvolvido para uso dos pilotos de teste do Projeto X-15 da NASA, ancestral de aeronaves como o SR-71 Blackbird e Space Shuttle, e posteriormente lançado ao público. Ficou particularmente conhecido após o Rei do Rock, Elvis Presley, utilizado no seu show especial de natal, em 1968. 
  • Em 1964, o Bulova Accutron foi escolhido para ser enterrado por um período de cinco mil anos no subsolo da Feira Mundial de Nova Iorque, como forma de preservá-lo para as gerações futuras, ao lado de 44 outros objetos tidos como os inventos mais inovadores nas últimas duas décadas e meia.
  • Também em 64, o presidente norte-americano Lyndon B. Johnson chancelou o Bulova Accutron como presente oficial dos Estados Unidos para dignitários em visita ao país.
  • O Bulova Accutron foi utilizado como instrumento científico para a primeira medição correta da Groelândia.
  • Na Feira da Basiléia de 1990, a Technos de Neuchâtel (não confundir com a nossa Technos nacional), apresentou uma série limitada de relógios equipados com calibres ESA 9162 de estoque antigo, num verdadeiro “Tunel do Tempo”.

O zumbido do diapasão
O Accutron na prática
Modelos para todos os gostos
A investida suíça
Inevitável fenecimento
Fatos e curiosidades interessantes
Bibliografia